segunda-feira, 30 de março de 2026

Os olhos na janela

 Da esquina já dá pra ver os olhos azuis que observam a vida pela janela lateral.  Nem sempre os olhos já cansados conseguem me identificar à distância de 50 metros que separa a janela da esquina, mas eu os vejo. Não exatamente eles mas sua dona, apoiada na janela de madeira branca. 

Quando ela está lá, se não vou subir abano, até ela reconhecer e abanar de volta. Mas sempre que possível prefiro subir a rua. Percorrer os 50 metros já sorrindo enquanto olho para ela. 

E ela, assim que percebe que sou eu, sorri de volta e já começa a me chamar para entrar. 

Seus olhos azuis já viram tanta coisa em seus mais de 80 anos, e seguem lindos atrás de seus óculos de aros claros. 

Sempre pronta pra me receber. Pra olhar por mim. Sempre disponível.  Sempre carente. Sempre querendo que eu fique um pouco mais... 

Mas da janela pra fora a vida corre insana e acabo sempre indo e ficando menos do que gostaria, porém guardo no coração todas as imagens dela na janela, com seus olhos azuis vigilantes...porque sei que um dia esses olhos me farão falta. Sei que um dia vou buscar pela sua presença sem encontrar...assim como já não encontro mais meu avô na esquina, sorrindo pra mim. 

Enfim... tem amores que são além da vida. E é bom quando entendemos o seu valor antes de perdê-los. Eu guardava no coração a imagem de meu avô chegando e saindo da minha casa...sempre carregando coisas que trazia pra mim. E ele se foi, mas sua imagem segue em mim, na minha memória e no meu coração.  Assim como guardo os olhos azuis de minha vó... espero que demore muitos e muitos anos ainda para sentir falta deles...mas por garantia quem amamos precisa estar sempre num relicário em nossos corações! 

Noite

Últimos dias de março e não tivemos águas fechando o verão, nem tão pouco o costumeiro ventinho que começa soprar para tombar as folhas secas das árvores. 

O outono oficialmente já começou, mas o calorão atípico faz o suor correr e ensopar as roupas nestes abafados dias. Mas quando o sol se vai e a noite chega a surpresa de não termos nem uma folha se mexendo, mantém as noites quentes e gostosas...com doces ares de verão.  

São praticamente dez horas da noite e me sinto muito feliz em estar deitada na rede no alpendre atrás de casa. Se baixo o pé direito tenho a pedra bruta sob meus pés,  mas se baixo pé esquerdo toco a grama bem aparada do quintal. Que paz. 

Uma luz acesa para iluminar de forma tênue o ambiente, o chimarrão na mão, e diante dos meus olhos meu cenário preferido...a três marias arbustiva repleta de flores cor de rosa, o gramado, o pé de platano ainda repleto de suas imensas folhas e ao fundo a cerca completamente escondida pelos quatro pés de três marias na versão trepadiera. 

Eu amo esse pátio. Amo saber que todo o verde aqui foi plantado e cultivado por nós.  É como um pequeno legado de vida posta na terra. 

Mas o que me deixou mais encantada nesta noite quente foi como ela me transportou para a minha infância. Naquela época minha alegria eram as noites de calor, poder sentar na varanda da casa de meus avós e ficar lá até muitooo tarde. 

As conversas, os vizinhos, as pessoas que passavam na frente de casa. Eu amava ficar ali. Tinha um quê de liberdade poder estar fora de casa até tarde. Nunca fui brincar na rua nem nada disso, pois não haviam crianças nas redondezas. Mas apenas estar na roda do mate, ouvindo os adultos já era o paraíso para mim. 

Eram assim as noites de fim de novembro, dezembro e janeiro. Mas depois o mundo se fechava com o pôr do sol. O ventinho começava a soprar nas noites e a porta de casa se fechava, as conversas davam lugar a TV e o mundo parecia outro.

Nesta época do ano a vida noturna lá fora eu só via através da janela. E lembro como isso me entristecida...era como se as noites de calor fossem sinônimo de cheiro de flor, passeios, liberdade, leveza. E o frio uma prisão e suas doenças.

Hoje o frio já não me adoece, e também não é mais tão severo como antigamente. É até gostoso em certa medida...mas esse gostinho de uma noite super quente fechando março é um abraço pro coração.  Um verão que invade o outono e me faz pensar que hoje eu que mando em minhas portas...e que é bom poder estar fora e curtir um pouquinho mais a liberdade das noites quentes.