segunda-feira, 30 de março de 2026

Os olhos na janela

 Da esquina já dá pra ver os olhos azuis que observam a vida pela janela lateral.  Nem sempre os olhos já cansados conseguem me identificar à distância de 50 metros que separa a janela da esquina, mas eu os vejo. Não exatamente eles mas sua dona, apoiada na janela de madeira branca. 

Quando ela está lá, se não vou subir abano, até ela reconhecer e abanar de volta. Mas sempre que possível prefiro subir a rua. Percorrer os 50 metros já sorrindo enquanto olho para ela. 

E ela, assim que percebe que sou eu, sorri de volta e já começa a me chamar para entrar. 

Seus olhos azuis já viram tanta coisa em seus mais de 80 anos, e seguem lindos atrás de seus óculos de aros claros. 

Sempre pronta pra me receber. Pra olhar por mim. Sempre disponível.  Sempre carente. Sempre querendo que eu fique um pouco mais... 

Mas da janela pra fora a vida corre insana e acabo sempre indo e ficando menos do que gostaria, porém guardo no coração todas as imagens dela na janela, com seus olhos azuis vigilantes...porque sei que um dia esses olhos me farão falta. Sei que um dia vou buscar pela sua presença sem encontrar...assim como já não encontro mais meu avô na esquina, sorrindo pra mim. 

Enfim... tem amores que são além da vida. E é bom quando entendemos o seu valor antes de perdê-los. Eu guardava no coração a imagem de meu avô chegando e saindo da minha casa...sempre carregando coisas que trazia pra mim. E ele se foi, mas sua imagem segue em mim, na minha memória e no meu coração.  Assim como guardo os olhos azuis de minha vó... espero que demore muitos e muitos anos ainda para sentir falta deles...mas por garantia quem amamos precisa estar sempre num relicário em nossos corações! 

Noite

Últimos dias de março e não tivemos águas fechando o verão, nem tão pouco o costumeiro ventinho que começa soprar para tombar as folhas secas das árvores. 

O outono oficialmente já começou, mas o calorão atípico faz o suor correr e ensopar as roupas nestes abafados dias. Mas quando o sol se vai e a noite chega a surpresa de não termos nem uma folha se mexendo, mantém as noites quentes e gostosas...com doces ares de verão.  

São praticamente dez horas da noite e me sinto muito feliz em estar deitada na rede no alpendre atrás de casa. Se baixo o pé direito tenho a pedra bruta sob meus pés,  mas se baixo pé esquerdo toco a grama bem aparada do quintal. Que paz. 

Uma luz acesa para iluminar de forma tênue o ambiente, o chimarrão na mão, e diante dos meus olhos meu cenário preferido...a três marias arbustiva repleta de flores cor de rosa, o gramado, o pé de platano ainda repleto de suas imensas folhas e ao fundo a cerca completamente escondida pelos quatro pés de três marias na versão trepadiera. 

Eu amo esse pátio. Amo saber que todo o verde aqui foi plantado e cultivado por nós.  É como um pequeno legado de vida posta na terra. 

Mas o que me deixou mais encantada nesta noite quente foi como ela me transportou para a minha infância. Naquela época minha alegria eram as noites de calor, poder sentar na varanda da casa de meus avós e ficar lá até muitooo tarde. 

As conversas, os vizinhos, as pessoas que passavam na frente de casa. Eu amava ficar ali. Tinha um quê de liberdade poder estar fora de casa até tarde. Nunca fui brincar na rua nem nada disso, pois não haviam crianças nas redondezas. Mas apenas estar na roda do mate, ouvindo os adultos já era o paraíso para mim. 

Eram assim as noites de fim de novembro, dezembro e janeiro. Mas depois o mundo se fechava com o pôr do sol. O ventinho começava a soprar nas noites e a porta de casa se fechava, as conversas davam lugar a TV e o mundo parecia outro.

Nesta época do ano a vida noturna lá fora eu só via através da janela. E lembro como isso me entristecida...era como se as noites de calor fossem sinônimo de cheiro de flor, passeios, liberdade, leveza. E o frio uma prisão e suas doenças.

Hoje o frio já não me adoece, e também não é mais tão severo como antigamente. É até gostoso em certa medida...mas esse gostinho de uma noite super quente fechando março é um abraço pro coração.  Um verão que invade o outono e me faz pensar que hoje eu que mando em minhas portas...e que é bom poder estar fora e curtir um pouquinho mais a liberdade das noites quentes. 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Nuvens

 O céu é capaz de mudar de perspectiva dependendo do ponto de vista de quem o vê.  Neste mesmo dia - o primeiro por sinal, de um novo ano - observei o céu de dois locais diferentes. 

O mesmo país, o mesmo estado, a mesma cidade, de um mesmo mundo - redondo - o mesmo céu. Será? 

Do meu primeiro 'observatório' ,digamos assim, precisei inclinar meu pescoço para trás para ver um céu de mescla de azul, branco e cinza. Longe como sempre, calmo, comum. Nada de novo no céu do ano novo pensei! Neste momento de tão comum o céu ainda nem era crônica...mas...

Uns minutos depois, outra casa, outro ponto de vista. Apenas algumas quadras de distância, menos de um quilômetro, e quando sentei diante da piscina de borda infinita, com o horizonte numa vista de 180 graus formando um semi círculo na minha frente - provando que sim, é redondo o mundo - o céu me surpreendeu.

Mais do que a imensidão - e então o vazio de nossa pequenez - mais do que as cores num complexo e mutante fluir de cinzas, laranjas, avermelhados e brancos - já quase sem azuis - às 19:30 de janeiro no sul da América do Sul! 

Mais que tudo, minha surpresa estava nas nuvens, mais que elas em sí mas seu formato. Na minha diagonal direita, desde o alto da minha cabeça até pousar no horizonte distante, uma imensa nuvem cinza escura se partia ao meio pelo comprimento, deixando surgir ao fundo um pequeno céu azul. Ela parecia próxima - se me esticar um pouco toco? - não toco. E derrepente meu peito aperta numa agonia, uma ansiedade por não poder tocar...ela é tão linda! Tão fofa! 

Desvio os olhos um pouco para à esquerda onde nuvens brancas pequenas bordam o céu de fundo ainda azul. Suas bordas laranjas mudando de cor rapidamente. 

Baixo os olhos para a água a minha frente. Sigo o olhar da borda da piscina para o horizonte. O vale lá em baixo, e do outro lado, a borda do meu mundo nesse momento é o morro do Cristo. É o ponto alto do outro lado da cidade, braços abertos, branco ao redor muito verde, e uma única árvore mais alta, meio pendida para à direita, sua copa redonda, deixando vazar o céu por trás de sí.  

E então pensei comigo mesma. Quem nos olha lá de cima agora? Pra além das nuvens, alguém nos observa? Quem cuida da gente aqui? Será que alguém cuida? 

E então meus olhos vagaram rápidos por todo céu e ali, diante de mim, entre as nuvens brancas bordado o céu e a gigantesca cinza escura, uma nuvem cinza clara formava uma imagem. Me lembrou um homem, roupa longa, como se fosse um santo. Por afinidade da minha mente associei ao Monsenhor João Benvegnu - a figura lembrava - mas no meu coração lembrei de imediato de meu avô. Do mundo do céu - que não sei se é redondo, se tem piscinas ou nuvens - é a pessoa que mais amei. 

E então, sorrindo, imediatamente repondi a minha própria pergunta: sim, alguém cuida sim! 


domingo, 12 de outubro de 2025

Perspectiva

Parada na sacada com o parapeito de vidro encostando na minha pele à cima da linha do umbigo mantenho o olhar ao longe. Sem desviar os olhos para baixo ou para cima, o que vejo a minha frente na altura natural dos meus olhos é o horizonte. 

Estamos no nono andar de um prédio residencial que fica numa região alta da cidade e assim, mesmo os prédios com a mesma altura que este, por estarem dispostos em ruas mais baixas, acabam ficando posicionados à baixo da linha dos meus olhos. Daqui, o horizonte distante onde o céu toca a terra - ou seria a terra que toca o céu - enfim, lá onde parece que o mundo termina, como se pudéssemos ver a borda do mundo, é aonde minha visão - ainda privilegiada aos 30 e poucos - alcança.

Uma vasta extensão de terra plana, lavoura e árvores, encontrando o céu hora azul brilhante, hora vermelho fogo e por vezes mesclando tons de cinza que vão do quase branco ao quase preto nos anunciando temporal. 

Nesta silenciosa tarde de domingo, quando parece que o mundo todo cochila para fazer a digestão, eu me pego observando a vista espetacular deste nono andar. Tudo lá em baixo está calmo, vazio, silencioso. As ruas desertas como se todos tivessem sido afetados pelo sono profundo. Um misto de paz e angústia envolve esse momento. É uma espécie de vazio, ver o mundo aqui de cima dá a medida da imensidão. Trás a tona a nossa miudeza, nossa insignificância diante do todo! 

Aqui onde ninguém vê,  ninguém alcança. Onde preciso baixar os olhos para tocar a existência da humanidade,  como se eu estivesse a cima dela, me pergunto: o silêncio,  o tédio, o vazio....são conforto ou desconforto? Quando o mundo silencia e parece que só você está de olhos abertos, no privilegiado topo do mundo, você se vê abençoando ou incomodado? 

Por aqui o silencio é paz. O pequeno incomodo do tédio é fonte de inspiração. Escrevo enfim! Pra ouvir dentro, pra por pra fora, pra afirmar a minha existência viva, alerta e pulsante, neste mundo de muitos. Só eu e os passarinhos que voam na altura de meus olhos, como testemunhas de que esta tarde de domingo de fato existiu! 

sexta-feira, 28 de março de 2025

Tuas ruas meu caminhar!

 Sempre que penso em ti, com nostalgia de nosso tempo juntas, penso em tuas ruas. 

Dos dez anos em que convivemos diariamente, muitos foram os lugares onde estive, os endereços onde morei, as festas, os amigos, os amores, as memória. Porém,  sempre que penso em te ver de novo, é sempre nas tuas ruas que quero estar. 

Tuas calçadas irregulares, tuas avenidas largas, cortadas a cada 100 metros por tuas ruas estreitas. Tuas ruas com nome de avenida - embora não sejam - tuas vias sinuosas como um dia foram os trilhos dos trens que levaram a prosperidade as tuas terras. 

Das praças de árvores centenárias, aos prédios de muitos andares, da agitada vida noturna aos domingos de silêncio, o que mais amo é lembrar das tuas ruas e do meu caminhar. 

Desde o primeiro dia em que fixei residência em uma esquina da Avenida Brasil, tratei de me esforçar em decorar o nome de tuas ruas principais, aonde ficavam, para aonde levavam. E por muitos anos meu dia a dia foi de muito caminhar por teus logradouros. 

Sempre amei te conhecer. Me fiz adulta em tuas vias, cresci mergulhando nos teus becos, aprendi sobre a vida entre o agitado vai e vem da tua rotina. Aprendi a me guiar por teus bairros e ruas escondidas. Tuas ligações menos usadas, tuas escassas ruas de paralelepípedo. Teus bairros menos famosos, que no silêncio das segundas feiras a tarde, me lembravam minha pequena cidade natal. 

Meus passos receosos pelas noites escuras. Meus passos rápidos pra não perder o ônibus. Minha mente viajante viajando longe enquanto teus comércios - fonte principal do teu viver- passavam como borrão pela janela do ônibus. 

Meus passos largos rumo ao trabalho e meus passos lentos de volta pra casa. Os passos ofegantes depois do cigarro - sobremesa típica daqueles tempos - os eventuais passos trôpegos, resultado do álcool. E também os firmes e responsáveis passos pra faculdade. 

Já há muitos anos és memória, vens à tona no silencio de meus pensamentos no automatizado trabalho manual que exerço. E quando penso na saudades....minha saudades é sempre essa...sempre de tuas ruas...sempre do meu caminhar. 

Me vejo cruzando a Praça da Cuia, e a Praça do Hospital São Vicente. Passo em frente a padaria na frente do hospital. Fico feliz com as árvores que emolduram o campo do quartel e com a rua que se alarga a perder de vista...

Num outro saudosismo à toa, caminho na lateral de outra praça, desvio os olhos do camelô, foco nos imensos pés de algodão...logo ali tem o Velvet, e aquela Chopperia que pouco tempo durou. Dobro à direita. 

Também desço ruas apertadas demais para 2 carros passarem, ladeira a baixo, tem o Zaffari da Vergueiro. Ladeira a cima, sabia que tem muitas ruas de paralelepípedo e casas enormes? Que o bairro Fátima se liga com a Vera Cruz? 

E lá na outra ponta, onde a Cohab 1 e 2 são divididas pela Av Brasil e os dias de semana são calmos como cidade de interior. Você conhece? 

Que do Boqueirão você chega na Lucas Araújo, e logo ali é a Vila Luiza. Que a Sete de Setembro termina estreita, quase sem importância, perdida e sinuosa ela morre entre casinhas antigas lá na Ângelo Preto. 

Que a Morron é linda no Natal e que a Praça Santa Terezinha é a minha preferida da cidade. Que o Sétimo Céu é ponto histórico, e que todo mundo sabe onde fica a decida do capingui. Que a Gare era perigosa e puro mato, que o Passo Fundo Shopping não passava de um paredão enorme, de um pavilhão desativado. Que o Bella Citta já foi metade do que é, e que a outra metade não passava de um estacionamento enorme do mercado Zaffari, com um quiosque do Mac Donald na esquina. 

Que o Shopping Plaza já foi famoso, assim como o bailão da 15. Que o cinema do Bourbon já teve seus dias de glória. Que as galerias da cidade já foram refúgios famosos de muitos comércios. Que as locadoras de vídeo cassete e DVD eram enormes e famosas. Que o Hospital de Clínicas, era Hospital da Cidade e também era metade do que é hoje. Que o Mucio de Castro já foi o único teatro da cidade e que ali nos fundos rolava um sopão comunitário pras pessoas carentes...e se você descer as escadas vai se deparar com a escondida Biblioteca Municipal? 

Ahhh quantas e quantas histórias, quantas e quantas ruas, quanto caminhar. 

Foi sempre um prazer... fisicamente não caminho mais por tuas ruas, mas mentalmente sigo caminhando por ti...pelas tuas ruas o meu caminhar! 

sábado, 22 de março de 2025

A casa das vassouras

 Era um sábado de sol manso, primeiro ou segundo dia de outono, não me recordo bem. Ainda fazia calor no sul do mundo, embora as folhas das árvores balançassem mansamente e o sol em diagonal já não aquecesse tanto a terra como antes. 

Estacionada a esmo numa rua qualquer admirando os tons dourados e aconchegantes que o sol impunha ao entrar pela janela aberta do carro, sinto meu olhar até então distraído ser fisgado por uma cena curiosa. 

Do outro lado da rua uma casa cinza com grades pretas de estrelinha nas janelas, exibe uma curiosa coleção de vassouras em sua varanda. Minimamente curioso.

A varanda bastante diminuta, quase que apenas um patamar, se estende por no máximo dois metros na lateral da casa cinza, logo ao final do último dos dois degraus que levam na calçada até a porta de entrada da casa. 

Uma cerquinha de ferro forma o peitoral que ladeia a lateral e o fundo da varandinha. E é lá, na parte do fundo da varanda, que fica a coleção de vassouras. São seis vassouras e uma pá, todas penduradas logo abaixo do teto da varanda, enganxadas pela ponta do cabo num varão branco que se estende da coluna até a parede na lateral da porta da casa. 

São vassouras de diferentes tamanhos. Redondas, quadradas, quase todas mesclando tons de verde. 

Enquanto analiso a cena curiosa e me perfunto: porquê alguém guarda suas vassouras na entrada da casa, expostas de frente pra rua?! 

Pareço descobrir a possível resposta. 

Um senhor na faixa de 70 anos salta da porta com, pasmem, uma vassoura nas mãos. Ele vem varrendo a casa de dentro pra fora, varre a varanda em questão e então termina pendurando sua vassouras também no telhado da varanda, porém na ponta da frente, quase sobre o último degrau da escada. 

Ele desce e em seguida volta com um pano nas mãos, se ajoelha e passa o pano no piso da varanda, logo após ele estende o pano na cerca da varanda, distraído bate a cabeça na vassoura que está sobre o degrau da escada e assim termina sua faxina semanal. 

Dois cachorros caramelo surgem na varanda e se deitam com paciência no piso a recém limpo. O homem some para os fundos da casa e tudo parece perfeitamente em ordem na casa cinza do outro lado da rua. 

Concluo aquilo que já sabemos...homens são bem mais práticos e tem bem menos senso estético que as mulheres.

sábado, 15 de março de 2025

O que realmente fica!

 Meu último tchau teve um " eu te amo" e um "amanhã eu volto". Nossas últimas horas foram como que um resumo de inúmeros momentos que tivemos juntos ao longo da vida. 

O cenário era o quarto de hospital, desta vez eu era a acompanhante e não a paciente, você contou histórias da vida...e nesse dia eram inéditas, histórias de tempos distantes, com direito a aventura, medos, detalhes... histórias como me contou ao longe de uma vida toda. Desde as que me contava para eu dormir na infância, até as que contava como ensinamento de vida. E eu sempre amei ouvir todas elas. 

Deixou, neste último dia, lições sobre janelas que devem ser fechadas à noite, falou sobre as dores e surpresas do dia anterior e entre sonecas e papos aleatórios, café da manhã e almoço, compartilhamos no mínimo 8 das tuas últimas 10 horas de vida! 

Se eu soubesse que era o fim não sei se faria algo diferente, porque na verdade nosso dia foi cheio de amor, paz e respeito...como em geral sempre foram todos os nossos dias juntos ao longo dos meus 35 anos. 

Você partiu de pressa num dia quente de sol escaldante, naquela hora da tarde onde parece que o calor é tanto que o tempo para. E parou! Teu coração parou...e um vazio enorme imediatamente estagnou nossos mundos. 

Do dia do adeus até hoje já se passaram 60 dias e hoje eu sei que o que realmente fica são as memórias. O que realmente fica é teus passos lentos e firmes caminhando até a minha casa, sempre com balde de frutas e verduras nas mãos. É a tua voz no portão dizendo pros cachorros: "chama a Denise." É teu jeito de caminhar com as mãos juntas nas costas enquanto analisava mais uma das minhas mil ideias de reforma. O barulho da camionete parando na rua, tuas ideias, tua ajuda, tua prontidão pra todos os serviços possíveis. 

O que fica é a paixão pela terra, pelo silêncio, pelo trabalho.  Os jogos de carta que aprendi contigo, teu olhar visionário, a aptidão pra gambiarras que eu herdei de ti, assim como a veia empreendedora que nos liga. 

O que fica é ver você em cada detalhe. No forro da garagem que fizemos juntos, nos caminhos de pedra que cortam o meu jardim, feitos por ti. Nas mil coisas que você que fez, ajudou, arrumou...

O que realmente fica é saudades. Muita saudades! E a saudades meu vô é a prova de que tudo valeu a pena... de que nossa história juntos foi linda e repleta de bons momentos. 

Obrigada por tudo e por tanto! Cada ensinamento tá comigo, cada abraço, cada história, cada carinho. Das mamadeiras da infância até as cervejas da vida adulta. Guardo tudo no meu coração...num relicário enorme aonde cabe toda uma vida de lembranças! 

Te amo pra sempre! Até breve ☘️


domingo, 23 de abril de 2023

Aquilo que fica!

 O que uma pessoa deixa quando se vai?! 

Me fiz essa pergunta num domingo de manhã lindo de sol. Não que eu esteja triste, ou que alguém tenha partido, mas por algum motivo inexplicável me pus a pensar...o que fica quando alguém se vai?! 

Não estou falando das memórias, nem das pessoas, e nem do pesar... estou aqui pensando naquelas coisas práticas, aquelas miudezas, aquele monte de objetos, por vezes esquecidos em fundos de gavetas, que serão escarafunchados por familiares ou amigos e trazidos a luz. 

Cartas, chaveiros velhos, uma vela de um aniversário distante. Um embrulho guardado para reutilizar um dia desses. Cadernos pela metade, livros, canetas jogadas aqui e ali. Um punhado de cremes nos armários do banheiro, a escova de dente abandonada para sempre. 

E aqueles pequenos hábitos intrínsecos de cada um, as pequenas coisas escondidas, tudo é descortinado, revelado, esvaziado. Aquela roupa velha que a pessoa amava usar e aquelas novas que nunca foram usadas...tudo perde o sentido. 

Por vezes imóveis inteiros, cômodos inteiros, com seus móveis. Por fim, as plantas do jardim ficam abandonadas, os animais de estimação divididos entre parentes ou abandonados a própria sorte. E num piscar de olhos tudo aquilo que uma pessoa foi capaz de criar e de produzir se reduz a nada entre os dedos ansiosos - talvez zelosos - viscosos de pesar daqueles que ficam. 

Então, porque juntamos tanto? Porque trabalhamos tanto por mais e mais? Mais roupas, mais móveis, mais imóveis, mais de tudo e cada vez menos tempo. É uma lógica avessa e estranha a da vida como a conhecemos e como nos comportamos diante dela. 

Talvez o tempo resignifique as coisas. Talvez aprendamos num futuro distante, que o valor de fato de uma vida é o que fica mas não é palpável. É aquilo que não precisa ser desenterrado de gavetas...porque não está ali, está na memória, na história, na marca que deixamos nessa passagem por aqui. Algo dito, algo escrito, algo vivido, gravado, estampado, pintado. A arte de qualquer que seja a forma, como matriz de uma marca que é única que é exclusiva e rica. 


segunda-feira, 17 de abril de 2023

Domingos de chuva

Domingos de chuva vem como um aval para o não fazer nada. É em domingos de chuva que, sem culpa, você simplesmente se deixa ficar. Derrama o corpo na cadeira, no sofá ou na cama e permanece na inércia vendo o tempo passar. 

Pega um livro ou liga a TV. Assiste um filme qualquer ou mergulha de cabeça num seriado por horas a fio. Não tira o pijama o dia todo, toma mais café do que deveria, come qualquer coisa, umas porcarias ou tira o tempo de fazer aquela comida gostosa e demorada. 

Nos domingos de chuva você tem a garantia de que ficar em casa é o melhor negócio e então se livra do peso daquela dinâmica social que diz que domingos de sol devem ser aproveitados ao máximo, com passeios, praia, amigos, família.

Domingos de chuva são aconchegantes, intimistas, serenos, calmos e sutis. Te obrigam a acalmar a mente e buscar dentro de si e do seu infinito particular um quê pra fazer ou não fazer. 

Domingos de chuva são caixinhas de possibilidades de autoconhecimento. É um pouco de você que surge de baixo da correria do dia a dia. 

Mas, num mundo de redes sociais de dias de sol, um dia de chuva pode trazer angústias, pode trazer um desespero para aqueles que não estão acostumados a ficar na sua própria companhia, a parar e curtir um momento de silêncio, de paz, de tranquilidade...de nada. 

Para mim é gostoso, o barulho da chuva no telhado, a certeza de que vou passar o dia curtindo a casa com o meu amor! Essa coisa gostosa de aquietar-se sem culpas. De saber que estamos em casa mas não estamos perdendo nada lá fora. Não poderíamos estar em outro lugar, nenhum passeio, nenhum trabalho externo. 

A grama não pode ser cortada, as árvores podadas, a parede não pode ser pintada, os exercícios físicos ao ar livre são suspensos. Diante da completa falta de possibilidades lá fora...eu curto muito estar aqui dentro. No meu mundo no meu momento, e tá tudo bem! Não é um dia perdido, pelo contrário. 

É claro que amo dias de sol, e domingos de sol. Amo passear, conhecer novos lugares e até mesmo aproveitar pra cuidar do jardim ou correr na rua. Mas num mundo sempre cheio de tarefas é a chuva que vem e freia tudo aquilo que não é essencial. As vezes desfaz planos, muda a rotina. 

Eu, deixo a chuva lavar a alma, limpar o céu, descarregar as energias, levar embora tudo o que estava acumulado aqui e ali, deixo a água correr livre lá fora enquanto olho pela janela e me deixo ficar, aqui, quietinha, sob o peso do nada. 

quarta-feira, 12 de abril de 2023

De novo aqui

 Existem lugares, assim como pessoas, que de forma inexplicável impactam nossas vidas e marcam de forma indelével o nosso ser e quando nos damos conta aquele lugar faz parte da gente, parte daquilo que vivemos, e mesmo que longe, ou completamente fora do habitual, é como se sempre estivéssemos estado lá. 

Para mim esse relacionamento estranho, essa sensação de pertencimento de um local do qual nunca pertenci de fato - ao menos não racionalmente nesta vida - é as Ruínas de São Miguel das Missões. 

O Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo é o que restou de uma das reduções jesuíticas, pertencente aos antigos sete povos das Missões. Localizada no noroeste gaúcho, na atual São Miguel das Missões, a redução foi iniciada por volta de 1687 quando o território pertencia aos espanhóis. Foi um local próspero, de cultura, artes, estudos e integração dos povos indígenas com os espanhóis. Também foi território de disputa entre espanhóis e portugueses e foi parcialmente destruída durante a guerra guaranitica em meados de 1756. 

Somente em 1925 começou sua recuperação no intuito de preservar a história da formação do Rio Grande do Sul e de seus primeiros habitantes. Foi tombado como patrimônio histórico pelo IPHAN em 1938 e em 1983 recebeu o título de Patrimônio Mundial da UNESCO. 

Eu era criança na metade da década de 90 quando a minha escola organizou uma viagem de estudos para as Missões. De minha parte não havia interesse algum em conhecer o local, confesso que naquela época, onde tudo o que se sabia do mundo era o que aparecia na TV ou o que se podia pesquisar na Barsa, eu não sabia exatamente o que estava indo conhecer. Mas o importante era a viagem, a noite viajando, os colegas, o dia de passeio fora dos muros do Colégio Estadual de  Primeiro e Segundo Grau Carneiro de Campos.

Fecho os olhos e posso sentir aquele dia até hoje. Lembro de descer do ônibus e procurar por um orelhão para ligar para casa e avisar que havíamos chegado. Na lateral externa do centro de atendimento ao turista, o orelhão preso a parede foi a linha que me comunicou com a minha família a mais de 300km de distância. Foi a primeira vez que fiz uma ligação desse tipo. 

Quando passamos os portões que dão acesso às Ruínas, foi uma sensação estranha, uma calma, uma paz e ao mesmo tempo me senti maravilhada com o que via. Era surreal tocar aquelas paredes, andar por entre as pedras que foram colocadas ali a tanto tempo. 

Me senti segura, pertencente. Ficamos ali para assistir o show de som e luzes que acontece todas as noites e que conta a história da redução. Era excitante fazer uma atividade à noite, com meus colegas e tão longe de casa. Foi incrível. 

Muitos anos depois eu sempre pensava em retornar, e no meu intimo mantinha a curiosidade de identificar se, de fato, aquela sensação diferente que eu lembrava de ter sentido na primeira visita, era apenas fruto de um cenário de descobertas e primeiras vezes de uma menina, ou se de fato existia um magnetismo ali. 

Eu retornei ja adulta e confirmei a sensação, e ao completar 34 anos, pisei pela terceira vez nessas terras e novamente me certifiquei de que esse sentimento de paz interior, de pertencimento, quase de aconchego, essa vontade de ficar, de olhar mais um pouco, de tocar mais uma pedra, caminhar para mais um canto, desvendar cada fenda e cada árvore é de fato real. 

Enfim não sei dizer o quê me chama, nem o porquê desse encantamento. Não consigo encontrar nem na minha história nem nas minhas raízes algo que justifique. Talvez seja a energia indígena, talvez o encantamento natural pela história e pelo que é antigo. Mas seja pelo motivo que for, esse lugar nessa cidade tão pequena e distante de casa, tem um pedacinho do meu coração e ricas memórias sensoriais que marcam sutilmente meu ser.